17 janeiro 2011

Eduard Estivill

"Se os filhos não dormem a culpa é sempre dos pais"

por

Sónia Morais Santos

Eduard Estivill

Pediatra e neurofisiólogo

68 anos

Responsável pela unidade de Alterações do Sono do Instituto Universitário de Dexeus de Barcelona

Coordenador da unidade do sono do Hospital Geral da Catalunha

Tem um sorriso sereno de quem dorme bem à noite. Eduard Estivill está sossegado porque tem ajudado a sossegar milhares de pais em todo o mundo. O seu livro já vendeu um milhão e meio de exemplares, e já foi traduzido para 18 idiomas.

O Método Estivill, que consiste em ensinar os pais a ensinar os filhos a dormir, é rígido e não admite alterações ou acrescentos criativos. E passa por deixar as crianças a chorar nas suas camas, visitando-as em intervalos cada vez mais espaçados. Os pais sofrem. Os filhos também sofrem. Mas o pediatra garante que o método é infalível.

É curioso que os pais ensinem tudo aos filhos - a andar, a comer com talheres, a bater palminhas. Mas nunca se fala em ensinar a dormir. É como se o sono, por ser inato, não necessitasse de aprendizagem.

Mas necessita. E como em qualquer ensinamento de um hábito, tem de haver repetição. O que acontece é que muitos pais não estabelecem um padrão, não repetem comportamentos, não estabelecem rotinas. Ou seja: as crianças ora adormecem com um biberão, ora são embaladas, ora ficam no sofá, ora adormecem na cama dos pais. Assim é muito difícil aprenderem a dormir.

E há muitas crianças a dormir mal, não há? Pelo menos, as queixas dos pais parecem ter aumentado.

Cerca de 70% dos recém-nascidos conseguem aprender o hábito do sono com um mínimo de rotinas, e dormem 12 horas seguidas sem qualquer problema. Depois, há cerca de 30% de crianças com dificuldades. Mas isto de ter um bebé que dorme bem ou que dorme mal não é uma lotaria.

Ou seja: quando dormem mal ou quando têm dificuldade em adormecer, a culpa é sempre dos pais?

Sempre. Dantes achava-se que os miúdos não dormiam por problemas psicológicos ou físicos. Mas não é nada disso. A percentagem de patologias efectivas é de menos de 1%.

Não é demasiado duro culpabilizar assim os pais?

Não, não! A culpa é dos pais, mas os pais não devem sentir-se culpados. Porque até agora ninguém lhes tinha explicado que era preciso ensinar as crianças a dormir. Até agora não tinham aprendido a ensinar os filhos. Por isso não têm de sentir culpa.

Penso que a culpa é, de resto, muito central na questão do sono das crianças. Não será a culpa que os pais sentem por estarem tão pouco tempo com os filhos que os leva a ceder no que diz respeito às birras para dormir?

Sem dúvida. Os pais receiam que o pouco tempo que têm para os filhos seja confundido com falta de amor. A intensidade do afecto não depende do tempo. Se depois do jantar os pais desligarem a televisão e se sentarem dez ou vinte minutos no sofá da sala, a cantar para os filhos e a ler-lhes histórias, é tempo mais que suficiente. É muito melhor do que uma hora e meia a verem televisão.

Então, qual é a rotina certa para que as crianças aprendam a dormir?

Está provado que o cérebro da criança concilia o sono com maior facilidade quando o ensinamos a dormir por volta das 21.00. Assim, os pais devem pôr os filhos a jantar às 20.00, e de seguida devem dar início ao hábito da afectividade.

Que é o tal momento em que os pais cantam e lêem histórias aos filhos?

Precisamente. É nessa altura que os pais devem dedicar cinco a dez minutos a partilhar com a criança uma actividade relaxante e agradável. Durante estes minutos, os papás mostram à criança como gostam dela. Estes momentos devem ser na sala.

Porquê na sala?

Porque deve ser um sítio diferente do local onde a criança come, e diferente do sítio onde a criança vai dormir.

Depois desse período, a criança vai para a cama. Se for um bebé que habitualmente fica a chorar, o que devem fazer os pais?

A segurança dos pais é a regra. Os pais devem dizer, num tom de voz calmo e seguro, qualquer coisa como: "Meu amor, o papá e a mamã vão ensinar-te a dormir. Vais ficar aqui com o teu boneco para fazer oó." E depois apagar a luz e sair. A partir desse momento é ter nervos de aço. E perceber que é preciso ir ao quarto de vez em quando, mas que os tempos que defino no livro não são obra do acaso. Este método é científico e foi muito estudado.

E é garantido?

Se os pais seguirem à risca o que digo, o método funciona em 95% dos casos.

E em quanto tempo se vêem resultados?

Em princípio, em menos de uma semana a criança está a dormir como deve ser.

Tenha que idade tiver? Isto é, vale a pena aplicar o método numa criança com três, quatro, cinco anos? Ou aí já são casos perdidos?

Não são nada casos perdidos! Claro que quanto mais cedo se ensinar uma criança a dormir, melhor. Se você quiser ensinar o seu filho a tocar piano, muito bem, vai pô-lo numa escola o mais cedo possível. Mas o método resulta em qualquer idade. O que os pais têm é de estar convictos de que estão a fazer a coisa certa. E não ceder.

Há especialistas que estão longe de concordar com a inflexibilidade do seu método. Porque consideram que quando uma criança chora durante a noite deve ser confortada ao colo e até na cama dos pais.

Há diferentes correntes no que diz respeito à pedagogia. Há uma corrente mais psicanalítica, que defende que as crianças devem dormir com os pais e etc., e há uma vertente científica que diz: não, isso não está certo. Aprender a dormir tem regras e as regras estudadas cientificamente são estas. Respeitamos quem pensa de forma diferente. Mas os pais que seguem esses métodos acabam invariavelmente por vir ter connosco porque os filhos não conseguem dormir.

Que reacções recebe por parte dos pais que, graças ao seu método, conseguem finalmente dormir?

Há pais que vêm ter comigo na rua e dizem: "Obrigado, mudou a minha vida!" É muito gratificante.

1 comentário:

  1. Hoje descobri o teu blog e adorei este post. O meu filho vai fazer 3 anos e no inicio eu e o meu marido deixávamos adormecer em todo o lado. E quando era a noite era com uma luzinha. Até que aos 3 meses foi para um infantário francês( moro em Paris), e nos descobrimos que no infantário ele ficava sempre no quarto, sem luz e apenas com estas simples palavras " nos estamos perto se precisares". Aplicamos logo em casa e resultou muito bem. Agora as vezes sai da cama e vem a nossa dizer que n tem sono, mas nos explicamos que o boneco tem e ele como responsável do boneco tem que ir adormecelo.
    Ser mãe é a melhor experiência do mundo mas trás muitas duvidas e questõe!
    Vou continuar a seguir o teu blog q é super interessante!

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